Terça, 28 de janeiro de
2014
A
comunidade Guarani Kaiowá mais ameaçada do momento, o tekoha Apyka'i, no
município de Dourados (MS), poderá enfrentar mais uma reintegração de posse.
A reportagem é de Ruy
Sposati e publicada pelo portal do Cimi, 27-01-2014.
Uma
nova manobra judicial garantiu que uma decisão - já cumprida - da Justiça
Federal de 2009, em favor do Cássio Guilherme Bonilha Tecchio, proprietário da
Fazenda Serrana, fosse, mais uma vez, utilizada contra os indígenas.
Agora,
os Kaiowá tem 30 dias para sair do local, onde estão acampados desde setembro
de 2012. O prazo para o despejo passa a
contar a partir desta segunda-feira, 27. A liderança da comunidade, Damiana,
reafirma que os indígenas não sairão da terra.
Até setembro do ano passado, a área era utilizada pela Usina São Fernando para plantio de cana em larga escala. Foi quando Damiana e sua comunidade retomaram o território, depois de 14 anos acampados à beira da rodovia BR-463, a 8 quilômetros do centro de Dourados, e voltaram a incomodar os produtores da usina. A terra reivindicada pelos Kaiowá como tradicional está em processo de identificação e delimitação pela Fundação Nacional do Índio (Funai).
"Agora
não vou deixar mais cortar cana e nem passar veneno", afirma a cacica
Damiana. Ela quer dizer que os Kaiowá não pretendem sair da fazenda. "Meu
pai morreu aqui no tekoha. Cemitério antigo tá aqui, fazendeiro botou fogo em
tudo. Agora só usina usa. Chega. Chega de aproveitar a terra aqui a usina.
Usina não vai mais cortar cana".
Veja
entrevista em vídeo com cacica Damiana:
http://vimeo.com/84799679
http://vimeo.com/84799679
"Deixa
assim mesmo. Apodrecer a cana". Ela se refere às plantações que estavam no
local no momento da retomada. "Eu não vou sair mais daqui. Pode ser tiro,
não vou sair mais não. E não vou deixar colher nem passar veneno".
A usina
Instalada
em Dourados em 2009, a Usina São Fernando é um empreendimento do Grupo Bertin,
um dos maiores frigoríficos produtores e exportadores de itens de origem animal
das Américas, e da Agropecuária JB, ligada ao Grupo Bumlai, especializado em
melhoramento genético de gado de corte. Um dos territórios utilizados pela
usina para produzir cana é reivindicado pelo Kaiowá do Apyka'i.
Em
2010, sob perigo de perder sua licença de operação em função de diversos
descumprimentos legais em questões trabalhalistas, ambientais e indígenas, a
usina teve de assinar um termo de cooperação e compromisso de responsabilidades
na Justiça.
Entre
as condicionantes estabelecidas pelo Ministério Público Estadual, Ministério
Público do Trabalho e MPF, a usina era obrigada a não renovar o contrato de
arrendamento da fazenda Serrana, de Cássio Guilherme Bonilha Tecchio,
propriedade que incide sobre o território reivindicado como Apyka'i pela
família de Damiana, quando o atual findasse.
O tekoha
Já
a história dos Guarani Kaiowá se perde no tempo - mas, em seu ciclo particular
de cana-de-açucar, os anos de beira de estrada, uma série tragédias acometeu a
família de Damiana. Cinco pessoas morreram por atropelamento - o último,
Gabriel, um dos netos de Damiana, morto em março de 2012, aos 4 anos de idade.
Uma idosa faleceu, segundo indígenas, envenenada por agrotóxicos utilizados nas
plantações que circundam o acampamento.
Tentaram
retomar o território algumas vezes. A última tentativa havia acontecido em
junho de 2008, e duraria até o cumprimento da decisão judicial citada no início
do texto. Depois de expulsos, a comunidade voltaria a viver na beira da
estrada.
Em
setembro de 2009, um grupo armado atacou o acampamento, atirando em direção aos
barracos. Um Kaiowá de 62 anos foi ferido por tiros, outros indígenas agredidos
e barracos e objetos foram queimados.
Também
em 2012, em agosto, ainda acampados na beira da estrada, um incêndio que
segundo indígenas teria sido iniciado propositalmente no canavial da Usina São
Fernando alastrou-se pelo acampamento, destruindo barracas, alimentos e
pertences dos indígenas, forçando-os a fugir. A causa do incêndio ainda não foi
confirmada.
Pouco
mais de um mês depois, em 16 de setembro, contudo, depois de 14 anos acampados
na rodovia, a comunidade mais uma vez moveu seu acampamento para dentro do
território reivindicado como tradicional, onde hoje incide a fazenda Serrana,
utilizada pela São Fernando para a monocultura em larga escala de
cana-de-açúcar.
"Nós
nunca mais vamos sair daqui. Se nós matarem, peço que tragam pás para nos
enterrar. Mesmo que nos invadem aqui, não vamo sair nunca mais. Vamos resistir
aqui. Mesmo que nos ameaçam vamos ficar aqui. A luta sempre vai continuar,
mesmo eu morrendo, porque eu tenho vários netos", afirma Damiana.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos.
Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/527693-comunidade-guarani-kaiowa-mais-ameacada-enfrenta-nova-reintegracao-de-posse
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