terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Justiça Federal suspende reintegração de posse em terra indígena de Japorã.

17/12/2013 – 14h11.

Tainá Jara

O Tribunal Regional Federal de 3º Região, por meio de seu presidente, desembargador Newton De Lucca, suspendeu, nesta terça-feira (17), a liminar de reintegração de posse da fazenda Chaparral, uma das propriedades que incidem sobre a Terra Indígena Yvy Katu, em Japorã, distante 484 quilômetros de Campo Grande. De acordo com o advogado terena, Luiz Henrique Eloy, esta propriedade é uma das mais conflituosas.

Conforme o advogado há recursos ainda para serem julgados referentes à reintegração de posse das fazendas São Jorge (antigo Agrolac), da Remanso Guasu e propriedades menores da região, onde incidem 14 propriedades rurais. A terra foi declarada com indígena em 2005.

Atualmente, cerca de 4500 índios da etnia Guarani Ñandeva ocupam a região. Há quatro dias, eles iniciaram um ritual religioso de “despedida da vida na terra” para resistir à reintegração de posse prevista para se executada pela Polícia Federal nesta quarta-feira (18).

O despejo dos índios foi requerido pela juíza da 1° Vara da Justiça Federal de Naviraí e a suspensão foi solicitada pela Funai (Fundação Nacional do Índio), nesta segunda-feira (16), através de seu presidente, desembargador Newton De Lucca.

Fonte: Jornal eletrônico Midiamaxnews.

Ruralistas instalam comissão da PEC 215 sob gritos de “Assassinos!, Assassinos!”. UDN ressuscita no Congresso.

em 11/12/2013.

Por Renato Santana,
de Brasília (DF).

Sob gritos de “Assassinos! Assassinos!”, deputados ruralistas instalaram na noite desta terça, 10, Dia Internacional dos Direitos Humanos, a Comissão Especial da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215. A medida visa transferir do Executivo para o Legislativo a aprovação da demarcação das terras indígenas, quilombolas e áreas de proteção ambiental. Nesta quarta, às 14 horas, ocorrerá a primeira sessão da comissão para a nomeação da mesa diretora.
A comissão poderá ter Osmar Serraglio (PMDB/PR) como relator. O ruralista foi o relator da PEC 215 enquanto ela tramitava na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), sendo levada à mesa diretora com parecer favorável de Serraglio e já sob protestos dos povos indígenas e quilombolas.
Há quase dois anos, as mobilizações indígenas e da opinião pública evitavam a comissão. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se posicionou contra a PEC 215 e juristas como Dalmo de Abreu Dallari e José Frederico Marés chamaram a atenção dos parlamentares à inconstitucionalidade dela, em audiência que contou com deputados da bancada ruralista.
O ministro Luiz Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), em recente parecer sobre liminar que pedia a interrupção da PEC 215 na Câmara Federal, declarou que não iria impedi-la de tramitar, sobretudo porque ela ainda estava em fase de análise, mas atestou a inconstitucionalidade da proposta.
Depois de tantos ataques sofridos, fato é que a PEC 215 foi preterida pela própria bancada ruralista, que atacou com a Proposta de Lei Complementar (PLP) 227, entre outras, e na expectativa de ver as demarcações das terras indígenas alteradas por força de portaria do Ministério da Justiça. Nas regiões, os ataques contra comunidades indígenas se intensificaram, ameaças de morte contra apoiadores da causa, e no Mato Grosso do Sul até um leilão de gado e soja, com fundos revertidos para a contratação de “seguranças” e armas contra os indígenas, chegou a ser organizado.  
O que se viu nesta terça, 10, foi uma verdadeira demonstração de que a truculência da bancada ruralista não atende ou respeita nada além do que a própria natureza do grupo, de caráter udenista e que traz em si o autoritarismo como metodologia política. Façamos uma revisão de como a comissão foi instalada.

O início da história.
A instalação da PEC 215, nesta terça, atende a dois episódios: um passado e outro futuro. Na semana passada, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, testou uma portaria, sem número, que visava regulamentar o Decreto 1775/96, alterando o procedimento de demarcação das terras indígenas numa tentativa de atender aos desejos da bancada ruralista.

O movimento indígena apresentou resistência e exigiu que a portaria, ainda em forma de minuta, espécie de esboço, não fosse publicada. Na semana passada, em passeata que saiu da 5ª Conferência Nacional de Política Indigenista, os indígenas ocuparam a parte externa do Palácio do Planalto e seguiram em protesto ao Ministério da Justiça. 
Em reunião entre lideranças da Articulação dos Povos Indígenas (Apib) e o ministro Cardozo, ficou definido que a minuta da portaria passaria por consulta nas comunidades, audiências públicas e debates. A bancada ruralista, que esperava a publicação para este ano, ficou bastante descontente.
A Frente Parlamentar Agropecuária logo reagiu e nas redes sociais divulgaram que o “cardápio” do almoço dos “comensais” da bancada, numa mansão de Brasília, seria a questão indígena, o trabalho escravo e as eleições de 2014. Aqui reside o episódio futuro: as eleições do ano que vem.
Os ruralistas não poderiam terminar o ano sem ao menos uma conquista para levar às bases do setor país afora, tal como ocorreu com o novo Código Florestal. Sem a portaria de Cardozo, previamente debatida com a bancada ruralista, algo precisava ser salvo e a PEC 215 era o ataque mais avançado.
Durante este ano, o presidente da Câmara Federal, Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN), criou a Comissão Especial. Faltava apenas instalá-la. Até esta ocasião, porém, o movimento indígena, em abril, ocupou o Plenário Ulysses Guimarães e dali uma Comissão Paritária foi formada para analisar todos os projetos envolvendo a questão indígena em tramitação na Câmara.
Mesmo com parecer contrário à PEC 215 emitido pela Comissão Paritária, formada por indígenas e parlamentares, Alves criou a Comissão Especial para analisar a proposta. Mais uma vez um mecanismo político criado serviu apenas de fachada ao golpe previamente acertado. Nesta terça não foi diferente.

A metade da história
Na manhã desta terça, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, o ministro Luiz Inácio Adams, da Advocacia-Geral da União (AGU) e o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, estiveram em audiência com a bancada ruralista, que pedia a instalação da PEC 215. Mesa da Câmara, Ministério da Justiça, AGU e PGR não conseguiram convencer os ruralistas e lavaram as mãos.
Alves então deixou a decisão para o Colégio de Líderes, na medida em que ele já tinha criado a Comissão Especial e tentava um acordo com as bancadas de PT, PSB, PSOL, PCdoB, PV e Solidariedade para que eles indicassem membros para a comissão. Seria constrangedor ele, como presidente da Câmara, instalar uma comissão apenas com os deputados ruralistas.
O imbróglio ganhou ainda mais atenção com os olhos do mundo voltados ao Brasil, por conta do Dia Internacional dos Direitos Humanos. À Tarde, todavia, depois de acirrado debate no Colégio de Líderes, decidiu-se pela instalação da comissão às 18 horas, no plenário 12. Alves, porém, seguiu dizendo que não instalaria. A Agência Câmara noticiou a instalação, depois negou o fato e na sequência novamente voltou a afirmar que a comissão seria instalada.
A confusão foi providencial e parte de um golpe bem engendrado pelos ruralistas. Sem Alves, os deputados ruralistas se ampararam no Regimento Interno da casa: como a comissão já estava criada, as regras permitem que o mais velho entre os deputados indicados para compor a comissão presida a sessão de instalação. Sem comunicação previas os parlamentares sobre a decisão de instalar e o novo horário, os ruralistas esperaram o fim da ordem do dia para, em poucos minutos, consumar o golpe.
Não sem resistência dos indígenas e de parlamentares contrários aos desmandos ruralistas.

“Assassinos! Assassinos!”
Cerca de 60 indígenas, entre Munduruku, bancada indígena da Comissão Nacional de Política Indigenista e Apib, ocuparam o plenário 13, da Câmara Federal, durante a instalação da Comissão Especial da PEC 215. Sob gritos de “Assassinos! Assassinos!” e “Demarcação Já!”, os ruralistas, em menos de 10 minutos, instalaram a comissão tentando impedir que parlamentares contrários ao ato falassem.
Mais cedo, porém, quando os Munduruku chegaram ao Congresso Nacional, agentes da Polícia Legislativa tentaram evitar que os indígenas entrassem na Câmara. “A PEC 215 não vai acontecer mais hoje. Podem ir embora”, diziam. No entanto, os Munduruku forçaram a entrada.
A eles foi prometido, pelos policiais, acomodações no plenário 16, para esperar a chegada do deputado federal Padre Ton (PT/RO), presidente da Frente Parlamentar de Defesa dos Povos Indígenas. O tempo correu até a chegada da informação de que no plenário 13 os ruralistas buscavam instalar a comissão.
Impedidos de chegar ao plenário, os Munduruku, mais uma vez, forçaram a passagem, confrontando a Polícia Legislativa. Tudo muito bem costurado: a Polícia Legislativa enrolou os indígenas num canto da Câmara, enquanto os ruralistas davam o golpe sorrateiro. Depois de princípio de tumulto, os Munduruku foram levados ao plenário 16.
Ou seja, três plenários para trás estavam os ruralistas. O espaço entre um e outro se tornou uma verdadeira Faixa de Gaza: de um lado os indígenas, em intifada, e de outro os invasores de suas terras tentando consumar o golpe. Depois de algumas horas, os indígenas furaram o cerco e se dirigiram ao plenário 13. A Polícia Legislativa recuou para dentro do plenário. Acuados e visivelmente com medo, os ruralistas rapidamente instalaram a comissão e saíram de cabeça baixa.

A história longe de ter fim
Para quem achava que a PEC 215 estava morta, eis que ela ressuscitou junto com o udenismo ruralista. A comissão, que deverá ter 40 sessões, é a ante-sala para a votação em plenário, e tanto em um espaço quanto no outro os ruralistas possuem grande força parlamentar.
O movimento indígena, por outro lado, tem mostrado grande capacidade de mobilização, o que deve ser ampliado não só em Brasília, mas também nas regiões. “Agora é seguir nos movimentos. A conjuntura tem demonstrado que aos povos indígenas não restam mais nada além da mobilização. Executivo, Legislativo e parte do Judiciário estão contra nós”, declarou Sônia Guajajara, da Apib, depois de instalada a comissão.
Esta história, porém, está longe de ter um fim. Pela primeira vez em Brasília, o cacique Saw Joapompu Munduruku, que luta pela demarcação de seu povo no Médio Tapajós e contra a Usina Hidrelétrica de São Luiz, relatou uma profecia Munduruku antiga, contada de geração à geração:
“A terra Munduruku, e agora entendemos que dos demais parentes, seria invadida e roubada. Teria outro nome, o que é hoje Brasil. A profecia disse que lutaríamos durante muito tempo apenas por pequenos pedaços dela, onde estão enterrados os antepassados. Muitos desapareceriam, seriam mortos, mas a luta poderia garantir essas terras. Quando me falaram dessa PEC pensei na profecia, que diz outras coisas. Vamos lutar até o fim”.

Fonte: Conselho Indigenista Missionário – CIMI.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Coca-Cola é arrastada ao conflito territorial de índios no Brasil.

16 dezembro 2013.

O líder de uma comunidade Guarani fez um apelo desesperado para a devolução da terra ancestral da sua tribo.

© Sarah Shenker/Survival

Índios Guarani pediram à Coca-Cola para que pare de comprar açúcar da gigante alimentícia estadunidense Bunge, que está envolvida em um escândalo de grilagem.
Um recente relatório da organização Oxfam reporta que a Coca-Cola compra açúcar da Bunge, que por sua vez, compra cana de açúcar produzida em terras dos Guarani para gerar biocombustíveis ‘manchados de sangue indígena’.
Um porta-voz Guarani disse à Survival International, ‘A Coca-Cola tem de parar de comprar açúcar da Bunge. Enquanto essas empresas lucram, nós somos forçados a aguentar a fome, a miséria e os assassinatos’.
A comunidade Guarani de 370 membros, chamada de Jata Yvary, no estado brasileiro do Mato Grosso do Sul, perdeu a sua terra ancestral a plantações que vendem cana de açúcar à Bunge, e os índios são forçados a viver em um pequeno pedaço de terra completamente cercado de cana.
A Coca-Cola está comprando açúcar de uma gigante alimentícia estadunidense envolvida no conflito territorial dos Guarani no Brasil.
© Nereu Schneider/Survival
A Coca-Cola está comprando açúcar de uma gigante alimentícia estadunidense envolvida no conflito territorial dos Guarani no Brasil.
A Coca-Cola está comprando açúcar de uma gigante alimentícia estadunidense envolvida no conflito territorial dos Guarani no Brasil.
Os índios sofrem de graves problemas de saúde como resultado dos pesticidas tóxicos jogados nas plantações, e lamentam a perda de sua floresta, da qual dependiam para alimentação, remédios e abrigo.
Arlindo, líder da Jata Yvary, disse em um tocante apelo gravado, ‘Quase derrubaram toda nossa mata, destruíram todos nossos remédios nativos, as nossas frutas e nossos recursos. Eles passam veneno de aviões. As crianças têm dor de cabeça e vômito’.


Os Guarani estão sofrendo por causa do crescimento na demanda mundial de biocombustíveis. A maior parte das terras da tribo foram roubadas e ocupadas por poderosos fazendeiros que as usam para a pecuária e produção de soja e cana-de-açúcar.
Líderes Guarani tornaram-se alvos e são assassinados por causa da sua luta pelos seus direitos territoriais. A situação desesperadora da tribo fez com que muitos Guarani retirassem as próprias vidas; eles têm uma taxa de suicídio 34 vezes a média nacional.
Ambrósio Vilhalva, que estrelou no filme premiado ‘Terra Vermelha’ que documenta a condição de sua tribo, foi o último líder a ser assassinado.
A Coca-Cola recentemente se comprometeu à política da organização Oxfam de tolerância zero à prática de grilagem e de ‘reconhecer e proteger os direitos de comunidades e povos tradicionais de manter acesso à terra e a outros recursos.’
A Survival tem instado a Bunge a parar de comprar cana de açúcar de terras Guarani; escrito à Coca-Cola; e pedido repetitivamente às autoridades brasileiras para que demarcassem as terras Guarani como uma questão de urgência antes da Copa Mundial de futebol em 2014.

O diretor da Survival, Stephen Corry, disse, ‘Empresas multinacionais são mestres em desviar as críticas com promessas de mudança, mas as políticas são inúteis quando ações concretas não seguem. Se o compromisso da Coca-Cola pode ser levado a sério, a empresa tem que parar de comprar açúcar da Bunge. Enquanto o negócio continua, o compromisso da Coca-Cola contra grilagem é sem sentido’.

Fonte: Survival International.

Carta Aberta do Conselho do Povo Terena de Mato Grosso do Sul - 08/12/2013.

HÁNAITI HO’ÚNEVO TÊRENOE

Conselho do Povo Terena

Nós, lideranças Terena representantes de nossas comunidades, vimos a público denunciar e repudiar o “agrobanditismo” que impera no estado do Mato Grosso do Sul  e conta com o silêncio e conivência do Estado brasileiro.
O Conselho do Povo Terena e Conselho Aty Guasu Guarani e Kaiowá insurgiram-se contra o “Leilão da Resistência” e conseguimos uma liminar favorável que suspendeu este instrumento financiador do genocídio. No entanto, a Famasul e Acrissul, valendo-se de manobra processual sórdida, conseguiram, no calar da noite, uma decisão liberando o leilão.
Primeiramente, é no mínimo estranho que a Acrissul e Famasul, diante de uma decisão suspendendo o leilão, não terem recorrido ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região para reverter a decisão. Para nós, é notório que houve pressão das elites ruralistas sobre os magistrados de primeira instância de Mato Grosso do Sul.
A curta vitória da suspensão do leilão foi histórica. Pela primeira vez, os povos indígenas de Mato Grosso do sul foram para o embate jurídico direto por meio de advogados constituídos para isso, com fundamento no artigo 232 da Constituição Federal, que garante que os indígenas e suas organizações possam, em nome e direito próprio, defenderem seus direitos na Justiça.
Resolvemos não esperar pelo Ministério Público Federal (MPF), Funai ou ONGs, como esperavam os ruralistas. Entramos nesse embate decididos a não assistir mais de braços cruzados as atrocidades cometidas pelos “coronéis” e “famílias elitistas” que se consideram os donos deste estado.
Repudiamos o “agrobaditismo” que impera no Mato Grosso do Sul!
Nosso estado registra o maior índice de lideranças indígenas mortas em contexto de conflito fundiário. Na maioria dos casos, há envolvimento direto das ditas empresas de segurança privada (estas que os ruralistas pretendem financiar com o dinheiro do leilão) ou serviço de pistolagem ilegal. Citamos alguns de nossos mortos:
•          Cacique Marcos Veron, 72 anos, assassinado em 13.01.2003 (Ação Penal no 2003.60.02.000374-2, 1a Vara Federal de Dourados, MS);
•          Dorival Benites, 36 anos, assassinado em 26.06.2005 (Ação Penal no 2005.60.06.000984-3, 1a Vara Federal de Naviraí – MS);
•          Dorvalino Rocha, 39 anos, assassinado em 24.12.2005 (Ação Penal no 2006.60.05.000152-9, 1º Vara Federal de Ponta Porã/MS);
•          Xurite Lopes, 73 anos, assassinada em 09.01.2007 (2007.60.05.00157-1, na 1º Vara Federal de Ponta Porã/MS);
•          Ortiz Lopes, 46 anos, assassinado em 08.07.2007 (Inquérito Policial nº. 046/2007 na Polícia Civil de Coronel Sapucaia – MS);
•          Oswaldo Lopes, assassinado em 29.05.2009;
•          Genivaldo Vera e Rolindo Vera, assassinados em 29.10.2009 (Inquérito Policial nº. 181/2009. Polícia Federal de Naviraí);
•          Teodoro Ricarde, assassinado em 27.09.2011;
•          Nísio Gomes, assassinado em 18.11.2011 (Inquérito Policial nº. 0562/2011 PF/Ponta Porã).
•          Oziel Gabriel, assassinado em 30/05/2013 – vítima da violência do estado.
A utilização de “milícias” para matar índio não é novidade nem invenção de nossas lideranças. Isto sempre existiu neste estado. A única diferença é que agora resolveram declarar isso publicamente.
Denunciamos o atentado de morte impetrado contra a liderança Paulino da aldeia Moreira. Paulino é liderança Terena e integrante do Conselho do Povo Terena. No dia que saiu decisão suspendendo o leilão, ele estava na Justiça Federal. No mesmo dia à noite, ele foi atacado em sua aldeia: homens encapuzados jogaram gasolina em Paulino. Ele conseguiu escapar, mas teve o seu carro incendiado. Hoje, dia 8 de dezembro, sua casa foi arrombada pelas pessoas que ainda querem dar cabo de sua vida.
Mas nós, lideranças indígenas, não iremos recuar!
O leilão ocorreu - mas sob condicionantes impostas pela Justiça Federal. A farra do agrobanditismo deve acabar neste estado. Não permitiremos que as ações dos ruralistas aconteçam com a conivência e tranquilidade que estão acostumados.
Repudiamos todos os parlamentares estaduais e federais que participaram e apoiam as ações criminosas, em especial Jerson Domingos, Luiz Mandetta, Fábio Trad, Zé Teixeira, Mara Caseiro, Waldemir Moka, Reinaldo Azambuja, Paulo Cesar Quartiero, Ruben Figueiró, Luiz Carlos Heinze, Ronaldo Caiado e Kátia Abreu. As portas de nossas comunidades estarão fechadas para todos nas eleições do ano que vem!
Se a Bancada Federal tivesse interesse em contribuir na solução do conflito, não apoiaria o leilão, mas fariam emendas federais para garantir recursos para o Fundo Estadual de Apoio à Regularização de Terras Indígenas (Fepati), criado pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul.
Conclamamos a sociedade civil para tomar lado nesta tragédia anunciada; para que se libertem dos mandos e desmandos dos coronéis deste estado e lutarmos juntos em busca do bem viver.
Não iremos recuar um palmo do território que retomamos!
É hora da retomada!
Povo Terena,
Povo que se levanta!


Conselho do Povo Terena, 08 de dezembro de 2013.


Fonte: Conselho do Povo Terena de Mato Grosso do Sul.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Índios que ocupam fazendas em Japorã denunciam ataques por pistoleiros armados

Os índios da etnia Guarani Kaiowá que ocupam propriedades rurais no município de Japorã, distante 477 quilômetro de Campo Grande, foram atacados por um grupo armado nesta segunda-feira (4), por volta das 23h. O grupo vítima da ação está acampado na fazenda São Jorge (antigo Agrolac), propriedade que teve pedido de reintegração de posse expedido na terça-feira (29), pela juíza federal de Naviraí, Ana Aguiar dos Santos Neves.
A assessoria de imprensa da Funai (Fundação Nacional do Índio) confirmou o ataque, junto ao coordenador regional do órgão. O grupo cercou e atacou barracas da comunidade na tentativa de asssassinar os líderas indígenas. Durante o ato, uma moto, de um suposto integrante do grupo armado, foi retida pelos índios e será entregue a Polícia Federal. Dois servidores do órgão estão na região.
Já a assessoria de imprensa da Polícia Federal não confirmou o ataque. Conforme a PF, uma base operacional está montada na região de Iguatemi para ações preventivas, bem como, para apurar quaisquer circunstâncias. Este grupo tem autonomia para solucionar qualquer tipo de problemas entre indígenas e fazendeiros.
O conselho Aty Guasu havia denunciado um ataque no sábado (2), quando o proprietário da fazenda São Jorge, localizada na terra indígena Yvy Katu, mandou 10 pistoleiros cercar o local onde os índios estão acampados e ao mesmo tempo mandou soltar dezenas de cabeças de gados para pisotear barracas e os próprios indígenas.
A fazenda faz parte de um total de 14 propriedades que incidem sobre a Terra Indígena de Yvy Katu, declarada em 2005, mas com processo de demarcação parado.

Fonte: Jornal Midiamaxnews.

sábado, 5 de outubro de 2013

Povo Terena retoma fazenda em terra indígena declarada desde 2007

04 de outubro de 2013.

Por Ruy Sposati,

Comitê de Imprensa da Mobilização Nacional, 

de Miranda (MS)

Um grupo de 30 lideranças Terena ocupou a fazenda São Pedro do Paratudal, em Miranda (MS), região do Pantanal, no final da tarde desta quinta-feira, 3. Arrendada para criadores de gado, a propriedade incide sobre a Terra Indígena Cachoeirinha, declarada pelo Ministério da Justiça em 2007. Não houve conflito. A retomada faz parte da Mobilização Nacional Indígena, convocada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, em defesa dos direitos constitucionais e pela demarcação de terras.

A intenção dos Terena é pressionar para que proprietários de terras que incidem sobre Cachoeirinha aceitem o pagamento das indenizações, parte do processo de desintrusão, de modo que a comunidade possa finalmente ocupar seu território tradicional. 

Conhecida pelos indígenas como Canta Galo, a fazenda de 600 hectares é propriedade de Pedro Paulo Pedrossian, filho do ex-governador do Mato Grosso do Sul, Pedro Pedrossian. O pai também era proprietário da fazenda Petrópolis, com 1,2 mil hectares incidentes na Terra Indígena Cachoeirinha, mas passou para o nome da filha Maura Regina Pedrossian. 

A fazenda Petrópolis já foi ocupada quatro vezes pelos indígenas. Na primeira tentativa, em 2008, os Terena permaneceram 15 dias na área, sendo expulsos por decisão judicial. Na segunda vez, em 2009, a comunidade permaneceu por sete meses. O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Gilmar Mendes deu decisão favorável ao fazendeiro. Dessa vez, os indígenas foram retirados de forma violenta da área pela Polícia Federal (assista aqui). 

Em 2011, na terceira tentativa, um interdito proibitório os fez sair das terras da Petrópolis. Porém, o interdito também se estendeu a fazenda São Pedro Paratudal, mesmo que os Terena nunca tivessem tentado sequer uma retomada. No mesmo período, um ônibus escolar Terena foi atacado e incendiado, levando à morte uma jovem indígena e deixando diversas crianças queimadas. A investigação sobre o crime nunca foi concluída, mas os indígenas atribuem o ataque aos fazendeiros, numa tentativa de intimidar o povo.  

Nada, no entanto, parece demover os Terena de retornar para o território tradicional. No ano passado, outra tentativa de recuperar a Petrópolis: dessa vez foram expulsos por jagunços e parentes do fazendeiro fortemente armado com pistolas e metralhadoras.

Indenizações

Os cerca de 8 mil indígenas que vivem em Cachoeirinha ocupam apenas 2,6 mil hectares da terra indígena, apesar da Portaria Declaratória determinar 36 mil hectares. O restante da área é tomada por 54 propriedades rurais. A Fundação Nacional do Índio (Funai) realizou o levantamento de benfeitorias em 12 dessas propriedades. Os recursos para os pagamentos estão disponíveis, mas os fazendeiros ainda não pegaram a verba. Ao contrário, as ameaças seguem contra os Terena. 

Em entrevista ao portal G1 o advogado Newley Amarilla disse: “A partir de hoje, se houver invasão [indígena], os produtores que estão lá em Dois Irmãos do Buriti e Sidrolândia prometem reagir e ficar, se necessário for, à bala”. Amarilla advoga para os pecuaristas.

Fonte: mobilizacaonacionalindigena.wordpress

A volta dos guerreiros - 25 anos depois da Constituinte

Senhores do poder, cumpram a Constituição e não a rasguem, não desonrem o país, não manchem a imagem da nação. Nossos direitos são sagrados e sob nenhuma hipótese podem ser violados.

02/10/2013





Egon Dionísio Heck


Quem imaginaria que 25 anos depois daquela difícil, mas gloriosa, vitória dos povos indígenas e setores progressistas da sociedade, na Constituição, com avanços significativos e conquista de direitos sociais, teríamos um quadro de mobilizações para impedir retrocessos. Sonhávamos com um cenário bem diferente: os direitos conquistados consolidados, rumo à construção de uma sociedade mais justa, na pluralidade de seus povos e culturas, democracia participativa e comunitária, não apenas representativa, formal e injusta.

Os guerreiros indígenas voltam à cena, ao espaço do poder, no Planalto Central. Vêm exigir que não retirem seus direitos da Constituição. Senhores do poder, cumpram a Constituição e não a rasguem, não desonrem o país, não manchem a imagem da nação. Nossos direitos são sagrados e sob nenhuma hipótese podem ser violados.

O espartano grito de guerra e paz dos Kayapó e centenas de povos indígenas encheu o espaço do Centro de Formação Vicente Cañas, onde se reuniram mais de mil indígenas que, na madrugada do início de outubro, acamparam na Esplanada dos Ministérios para fazer ouvir o seu grito, nacional e mundialmente. A chuva fina não tirou o ânimo dos guerreiros que em pouco tempo construíram a grande aldeia plural no coração do poder, no planalto central.

Conquistas e retrocessos

Quando, há 25 anos, Ulisses Guimarães, presidente do Congresso Constituinte, declarava aprovada a nova Constituição, consagrava uma carta Magna, na qual, pela primeira vez os povos indígenas conquistaram importantes direitos sobre seus territórios e recursos naturais e na sua relação autônoma com relação ao Estado e a sociedade brasileira.

Porém os povos indígenas não alimentavam ilusões quanto às enormes dificuldades que teriam pela frente, para fazer os direitos saírem do papel e se tornarem realidade. Não tinham dúvidas de que as elites políticas, econômicas e militares de tudo fariam para inviabilizar esses direitos. E assim aconteceu. Prova disto é que cinco anos após a aprovação da Constituição, quando todas as terras indígenas deveriam estar demarcadas, parlamentares e setores anti-indígenas desencadearam uma intensa campanha de "revisão da Constituição. Na prática, significada retirar direitos sociais dos índios, quilombolas e outros setores sociais. Apesar de não terem conseguido seus intentos em 1993, não desistiram de seus intentos retrógrados e genocidas.

Se não conseguiram retirar os direitos indígenas na Constituição, conseguiram inviabilizar a efetivação desses direitos, na prática. As maiores provas disso é que mais de 80% das terras indígenas, ou sequer foram demarcadas ou tem alguma forma de invasão. Além disso, o Estatuto dos Povos Indígenas, que seria fundamental para implementar e explicitar a efetivação dos direitos, até hoje não foi aprovado. O mesmo acontece com o Conselho Nacional de Política Indigenista, que poderia viabilizar a pratica colonialista do Estado brasileiro com relação aos 305 povos indígenas no país, até hoje continua emperrado no Congresso.

A guerra secular continua. Mudam as garras, mas permanece o preconceito, os esbulho, ódio, o racismo o etnocídio e o genocídio. Até quando.

Os povos indígenas em Brasília e em todo o país estão se mobilizando para defender seus direitos constitucionais, consuetudinários, originários e sagrados, a seus territórios e seus projetos de vida e autonomia.

Protagonismo indígena

Após as grandes Assembleias Indígenas da década de 70; as grandes mobilizações da década de 80; a Marcha e Conferência Indígena de Coroa Vermelha, no ano 2000; os Acampamentos Terra Livre, os povos indígenas no Brasil estão construindo um importante protagonismo dentro do cenário de transformações sociais no país e no continente. E hoje somam forças aos quilombolas, professores, acadêmicos universitários e conta-se com uma sociedade civil, mais informada dos direitos destes povos.

Estão se mobilizando para impedir que se continue rasgando a Constituição, massacrando os povos originários, tripudiando sobre a legislação nacional e internacional que asseguram os direitos e a diversidade étnica, cultural e societária no Brasil.

O movimento indígena, nesses 25 anos, avançou e consolidou um amplo e permanente espaço de luta e afirmação de seus projetos de vida e de futuro, construindo e ampliando as alianças com os demais setores oprimidos, explorados e excluídos da sociedade. O movimento indígena tem construído seu protagonismo na resistência e nas lutas pelos seus direitos dentro dos amplos processos de transformações sociais e construção de novos modelos de Estado e sociedade, na pluralidade de povos e culturas, com justiça social e democracia participativa e comunitária.

Os povos indígenas estão em mobilização, na avenida Paulista, nos fechamentos de estradas, nas retomadas de seus territórios originários, nos espaços dos três poderes em Brasília.

Povos Indígenas do Brasil em mobilização!

Brasíla, 2 de outubro de 2013.


Fonte: Jornal Brasil de Fato.

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