quinta-feira, 29 de setembro de 2011

“Meu partido político é o meu povo Kaiowa-Guarani"


Valdelice Verón, liderança e professora Kaiowa-Guarani
Texto e foto: comunicação cpt/ms

Na platéia, o assombro das pessoas e o que está por chegar aos ouvidos, fogem dos limites da imaginação. Silencio espectral. A quietude contida na respiração. O seminário pró Tribunal popular da Terra no Mato Grosso do Sul atinge um dos seus momentos mais significativos. O auditório “A” da UCDB de Campo Grande no dia 24 de setembro foi o cenário de denuncias e proclamações. Uma mulher indígena, professora e filha de uma das tantas lideranças assassinadas no estado, faz um comovente depoimento. A missão dela não é fácil. Relatar como atuaram os órgãos do governo e os pistoleiros juntos em 13 de janeiro de 2003 na ação que terminou com a morte de seu pai Marcos Verón, até então cacique kaiowa-Guarani da terra indígena Taquara, município de Juti/MS. Naquela data, mais uma vez, pistoleiros atropelam a comunidade em busca de despejo, de violência. Valdelice Verón vai além. Contextualiza a luta de seu povo, de sua comunidade, de sua família nuclear extensa. Descreve com realismo e emociona-se com a forma cruel que mataram seu pai. E ainda esboça momentos atuais do sofrimento do povo Kaiowa-Guarani e de outros povos indígenas no MS por conta da violência, da discriminação e negação de direitos.

“Quando minha mãe ia nascer”

Valdelice sentença que quando sua mãe ainda estava na barriga de sua avó, seus ascendentes já se escondiam, fugiam e se espalhavam pelos matos para evitar ser caçado pelos jagunços e funcionários do SPI (Serviço de Proteção ao Índio), órgão federal. Eram tempos de criação das oito reservas indígenas de Dourados. “Não perguntaram ao povo guarani se queria deixar suas terras tradicionais”.
Conta que vindo para Campo Grande como convidada a participar do Seminário, não longe da capital do estado, sobre a BR 163 avista um gigantesco confinamento de gados, que têm como destino o abate. E fala para o auditório: “assim que nos estamos jogados hoje nas reservas; como gados para sermos abatidos de várias formas todos os dias”. Lá por 1931 jagunços e o SPI não descansavam. A correria era grande. Ao mesmo tempo em que a mãe da Valdelice ia nascer uma tia dela estava grávida também. Saem da região da aldeia Teikue e entram em Lucero, região de Caarapó/MS. Despejos e perseguição contra esse povo indígena não tem trégua. O confinamento nas reservas era a ordem do momento. A Valdelice não tinha nascido ainda; sua mãe consegue se salvar. Sua tia morreu queimada viva!

“Fiz tereré para Lula”

O Grande povo Guarani foi reduzido nas oito reservas e a época do confinamento ganhou a sangue e fogo à época da liberdade. “Eu tinha seis anos quando Lula foi visitar meu pai na reserva e fiz o tereré para eles”. A história foi contada para quem iria ser o presidente da república. Foi falado da crueldade do confinamento, do trabalho escravo, da discriminação dos “brancos”, da dependência da cesta básica. Tudo segue igual; o estado brasileiro não reverteu o genocídio causado nas terras indígenas. Os territórios Kaiowa-Guarani ao invés de serem retornados para seus legítimos donos seguem sendo moeda de troca do latifúndio, do agronegócio, do crime organizado, dos políticos corruptos e juízes venais.

Uma e outra vez; em 1953, 1960, 1997, 2001, 2003, a comunidade indígena de Taquara da qual Valdelice faz parte partiu para a retomada, tentando recuperar uma parte das terras de onde foram expulsos. Lembra a fala do pai dita em 1997, mas que foi repetida muitas vezes: “Vamos voltar a nossa terra tradicional”. E muitas vezes também foram espancados, despejados e jogados nas beiras das estradas. Em 2001 uma montagem foi orquestrada contra a comunidade para justificar um novo despejo. Acusaram aos indígenas de ter invadido e roubado alimentos de uma fazenda. Embora não tinham pegado um só grão a resposta dos pistoleiros, policias e advogados ao serviço dos fazendeiros foi brutal. Algemaram e cuspiram o Marcos Verón. Falaram para ele na hora do despejo: “você e seus cachorros nunca mais voltem aqui”.

“Todo o mundo em marcha de novo”

O depoimento da liderança Kaiowa-Guarani chega ao que seria a marcha final do cacique Marcos Verón, seu pai. Valdelice conduz aos presentes no auditório para um clímax surreal. O relato dela se ergue como nas centenas via sacra do pai a quem acompanhou desde criança. “Meu pai não queria que o acompanhasse, tinha medo de picada de cobras, mas eu igual o acompanhava”. Viu injustiças demais desde cedo que com justa razão não acredita em reparação alguma. “Não consigo acreditar na justiça; sempre experimentei a sensação de que somos como uma doença em nosso próprio território” desabafa mais uma vez durante seu depoimento.

“Vamos sair da beira da estrada; somos estrangeiros em nossa própria terra. Todo mundo em marcha até a nossa terra de novo”, foi o ultimo grito de guerra de Marcos Verón, em outro inicio de partida para a terra sem males. Foi em janeiro de 2003. A filha conta varias anedotas como símbolos premonitórios da tragédia que esperava à comunidade. Os guerreiros Kaiowa-Guarani já tinham feito a ultima retomada da terra tradicional. Convidado por organismos internacionais de direitos humanos Marcos Verón tinha visitado Estados Unidos e Europa, onde divulgou a luta de seu povo. Na sua ultima empreitada com os fazendeiros Verón fala a Valdelice da primeira noite na terra indígena de tantas voltas: “Filha, eu dormi melhor que em Nova Iorque e que na Itália, porque aqui é a nossa terra tradicional, é o nosso lugar. Quero que você repasse pelo mundo todo como é a vida tradicional dos kaiowa-Guarani”. No outro dia tira o cocar e entrega para a filha e fala: “Você vai para Dourados, ao MPF a comunicar sobre a nossa decisão, pois, esta é a nossa terra”. Naquele dia também pede animado que seja preparada chicha para ele tomar a bebida tradicional dos Kaiowa-Guarani. Um lobão, como presságio do iminente final aparece na fonte de água da comunidade e o animal se faz ver em corpo inteiro, com muita força, o que na cultura guarani não é um bom sinal.

Em quanto Valdelice estava em Dourados aonde foi levar a mensagem de seu pai ao Ministério Publico Federal, acontece o novo ato de barbárie contra a comunidade. O grande cacique Marcos Verón é assassinado pela milícia privada do latifúndio. Valdelice se informa do ataque na aldeia através do noticiário da televisão estando na sede da FUNAI. “Vi na televisão que tinham espancado meu pai”. Funcionários da FUNAI falam para ela: “teu pai só levou um tiro na perna, ele já saiu do hospital”. Quando chegou ao hospital e pergunta pelo pai falam para ela: “teu pai já chegou morto aqui”.

“Acho que até meu medo já mataram”

Na parte final de seu depoimento um silencio sepulcral se apodera do auditório. Ela continua falando do mesmo jeito do atual sofrimento dos povos indígenas em Mato Grosso do Sul, como se falasse ainda da mesma morte do pai. Condena duramente os ataques, as mortes, as violências que no contexto atual acontecem contra seu povo. Fala de ter perdido o medo de falar o que de alguma maneira o assusta porque “acho que mataram até meu medo por tantas coisas que já passei”. Com tranqüilidade e determinação decide sentenciar: “Os brancos acham mesmo que estou sendo pacificada, mas posso testemunhar que ainda somos uma ameaça para o sistema capitalista, o agronegócio, a FAMASUL, porque seguimos escrevendo a nossa própria história”.

Já tentaram subornar ela muitas vezes, comprar seu silencio, sua dignidade. Um prefeito recentemente convida-a a se afiliar no partido dele em troca de favores. Valdelice lhe responde: “O meu partido político é o meu povo Kaiowa-Guarani”.

No auditório da UCDB o silencio respeitoso se faz emoção, a denuncia se faz bandeira e luta, e a mulher guarani é aplaudida durante um minuto de pé...

Fonte: CPT/MS.
Disponível em: http://www.cptms.blogspot.com/ 

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Seminário prepara Tribunal Popular da Terra e traça estratégias de resistência
23.09.11 - Brasil
Camila Queiroz
Jornalista da ADITAL
Adital

Comissão Pró-Tribunal Popular, entidades, organizações sociais e políticas e a coordenação do Curso de História da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) realizarão, neste sábado (24), o seminário O Estado brasileiro e a luta pela terra em MS: camponeses indígenas e quilombolas - aspectos históricos, sociais, culturais e jurídicos, a ocorrer na capital do estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, Campo Grande.
Integrante da Comissão Pró-Tribunal Popular/MS, Joana Moroni explica que o objetivo do seminário é subsidiar produção de provas para o Tribunal Popular da Terra, que ocorrerá em novembro, no Mato Grosso do Sul. Para além de atividade preparatória, o espaço deve se constituir também em momento de discutir e traçar estratégias de resistência para os problemas de sem-terra, indígenas e quilombolas no acesso a terra.
"O mais importante é propiciar discussão holística sobre a Reforma Agrária aqui. Discute-se o caso dos sem-terra, indígenas e quilombolas, mas nunca tudo junto. No entanto, a gente tem a compreensão de que a matriz de concentração de terra, hibridização entre Estado e agronegócio e racismo está na raiz dos problemas que esses três grupos enfrentam”, afirma Joana.
O seminário também funcionará como espaço de denúncia. "Especialmente porque a mídia não privilegia as versões indígenas”, ressalta.
A programação terá início com apresentação do livro Tribunal Popular da Terra: O Estado Brasileiro no Banco dos Réus. Em seguida, a professora doutora e geógrafa Rosemeire Aparecida de Almeida dará palestra com o tema Justiça no campo e projetos desenvolvimentistas. Depois, o procurador da República do Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul, Marco Antônio Almeida, proferirá palestra sobre A dignidade humana e a função social da propriedade.
Haverá ainda os painéis Trabalhadores do Campo e Reforma Agrária e Territorialidade e a luta pela Terra em MS. Este último, contará com a presença da professora kaiowa-guarani Valdelice Verón, filha do cacique Marcos Verón, liderança assassinada por milícia do latifundiário, em janeiro de 2003.
Sobre o caso do cacique Verón, Joana ressalta que é um exemplo da problemática racista no Mato Grosso do Sul. "Foi um caso emblemático, porque deveria transcorrer em Mato Grosso do Sul, mas o Tribunal Regional Federal entendeu que a sociedade é tão racista e anti-indígena que não havia condição de o caso correr ali, sendo levado para São Paulo”, conta.
O evento se realizará no Anfiteatro do bloco A da UCDB em Campo Grande, que fica na Avenida Tamandaré, 6000, Jardim Seminário.

Tribunal Popular da Terra
O Tribunal ocorrerá em novembro, com data e local a ser definidos. Terá o formato de Tribunal de Júri tradicional. De acordo com Joana, o juiz será um membro da Associação dos Juízes para a Democracia (AJD); o réu, o Estado, será representado por um grupo de teatro; os militantes comporão o júri e as testemunhas serão pessoas afetadas por conflitos no campo. Ao final de três dias de julgamento, o juiz dará a sentença. Será aberto ao público.
No banco dos réus, explica Joana, está o Estado, entendido como União, unidades federativas, municípios, instituições e autarquias.
Ademais da dimensão de denúncia dos crimes contra os povos da terra, o Tribunal pretende criticar a intervenção do Estado na Justiça. "É um espaço importante também para contestar o monopólio do Estado sobre a Justiça, principalmente no caso de um Estado que se auto-anistia”, frisa.
Esta será a primeira vez que o Tribunal ocorrerá, neste formato, no Mato Grosso do Sul. Contudo, Joana lembra que em 1987 movimentos sociais organizaram o Tribunal Popular do MS, voltado mais para a questão indígena. "A gente conseguiu resgatar o documento desse primeiro tribunal e o conteúdo é atualíssimo. Isso é extremamente trágico. Indígenas, camponeses e quilombolas continuam sofrendo as mesmas violações e sendo assassinados”, ressalta.

Fonte: ADITAL.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Tentar nos intimidar não vai nos calar, Lutar Sempre!

Aconteceu nos dias 15 e 16 de setembro de 2011 na Terra Indígena (TI) de Cachoeirinha município de Miranda – MS, na quadra de esporte da aldeia cachoeirinha mais uma Assembléia do Povo Terena. Caciques, professores, alunos, pais e mães representantes das aldeias Argola, Babaçu, Lagoinha, Morrinho, Cachoeirinha, Mãe terra e também do Acampamento Charqueada, reuniram-se para discutir sobre Terra, violência e Educação. Além da comunidade, dentre os participantes estavam lideranças terena de outras aldeias como Ipegue-taunay, representantes dos povos Guarani e Kadiwéu, CIMI e RECID (Rede Cidadã).

O ponto central das discussões foi às violações dos direitos territoriais diante da falta das demarcações das terras indígenas. A comunidade não aguenta mais a morosidade da justiça e falta de vontade política do Governo Federal para concluir o processo demarcatório.

Cachoeirinha terra Indígena já declarada com 36.000ha, dos quais estão na posse dos Indígenas apenas 4.400 ha, sendo que destes 1.800 ha. correspondem à aldeia Mãe Terra e a retomada de Charqueada (que se encontra em processo na justiça, gerando insegurança a comunidade). O restante da área esta sobre posse de fazendeiros, incluindo o Ex-governador do estado de MS Pedro Pedrossian. ”Estão extraindo até o ultimo recurso possível, deixando a área pobre e nua. Até quando!” indignava-se o professor Elvis.

A comunidade acredita estar sofrendo intimidações por conta de sua luta pela terra e o reconhecimento de seus direitos, como é o caso do atentado terrorista e genocida que aconteceu contra o ônibus de estudantes indígenas no ultimo dia 3 de junho deste ano, posteriormente levando a óbito a jovem e mãe de 4 filhos Lurdesvoni Pires.

Tentar nos intimidar não vai conseguir nos calar, vamos lutar sempre!  Os últimos fatos que aconteceram, abalou! A comunidade esta abalada e quer providencias, esse fato não vai ficar impune, porem, contribui ainda mais para o despertar de todo o povo da TI de cachoeirinha para que continuem lutando por seus direitos constitucionalmente amparados. A nossa voz não foi calada juntamente com a jovem Lurdesvoni, agora sim é que vamos gritar essa situação não virará rotina. (desabafou a liderança indígena da aldeia Argola)

Há praticamente um ano das eleições municipais as lideranças aproveitaram para começar a advertir a comunidade que: Nesse tempo o numero de “amigos” dos índios aumenta consideravelmente, de forma ilimitada a gente ver tantos rostos novos que pegam em nossas mãos, que a gente até esquece quem são; ou será que “os amigos” esquecem quem somos? (Otoniel Ricardo – Vereador Guarani)

É preciso ter cuidado nesse período com a quantidade de políticos que passaram os quatro anos de seu mandato sumidos, só reaparecendo agora na aldeia as vésperas das eleições municipais para levar o que a eles importa, o voto. Indagou Lindomar Terena.

Chega dos povos indígenas serem vistos, lembrados e considerados importante apenas nesse momento, é preciso que esses políticos cumpram com suas promessas eleitorais, desenvolvam e coloquem em pratica políticas e ações que atendam as demandas e necessidades da comunidade indígena.

Uma de suas responsabilidades, por exemplo, é oferecer condições para que as escolas indígenas da comunidade funcionem bem e possam oferecer aos alunos uma Educação de qualidade.

Segue abaixo a denúncia da direção e professores das escolas de Cachoeirinha.

O diretor responsável pela organização das escolas denuncia que se quer recebe da prefeitura de Miranda combustível para poder visitar as aldeias onde estão as escolas, tendo suas atividades prejudicadas, recebendo constantes reclamações dos pais, alunos e professores por não conseguir marcar presença efetiva nas áreas.

Segundo ele, a prefeitura de Miranda não dispõe de veiculo para que ele possa realizar o trabalho, alegando não ter veículos disponíveis, tendo ele que tirar recursos do próprio bolso pra efetuar seu trabalho. Será mesmo que não há veículos disponíveis, ou mostra clara a opção da prefeitura em não atender a comunidade indígena do município de Miranda?

As lideranças também refletiam sobre a importância da escola para a comunidade, pois, hoje sem o ensino não se é nada, relatou professor Genésio, porém para as populações indígenas é preciso uma escola diferenciada, a educação escolar precisar ser um espaço agregado as principais demandas da comunidade e não apenas um espaço usado pelo Estado para monitorar e controlar as formas de vida e organização dos povos.
 
A magia da escrita se burocratiza quando ela entra na escola, e a escola é quase sempre o espaço do Estado e das instituições que o representam. O lugar físico, social e político que tem a escola na aldeia confunde-se facilmente com o lugar que ocupa o Estado nesse povo. (Meliá, 1989)

Tudo isso é política! A nossa política não é politicagem!

Nós povo Terena também sabemos fazer política e hoje a nossa assembléia exige que a nossa política, os nossos professores e alunos, as mulheres, homens e crianças dessa comunidade sejam respeitados pelos políticos partidários, que ocupam os cargos públicos do município de Miranda e só estão lá por que nós o colocamos com o nosso voto. (professor aldeia Mãe Terra)

Essa Assembléia foi mais um passo do povo Terena na luta por seus direitos, principalmente o seu direito a terra.

Campo Grande, 17 de setembro de 2011.
Lídia F. Oliveira – Cimi MS.

Assembléia do Povo Terena de Cachoeirinha


ASSEMBLÉIA DO POVO TERENA DE CACHOEIRINHA
Novas perspectivas e estratégias. Resistir e lutar. Sempre!
Nós do povo Terena, da terra indígena Cachoeirinha, município de Miranda, Mato Grosso do Sul, reunidos em Assembléia para discutirmos e deliberarmos sobre as questões que envolvem nossos direitos, especialmente nosso direito à demarcação de nossa terra tradicional. Encerradas as discussões, vimos pelo presente documento nos manifestar sobre a nossa realidade atual e, ao final, fazermos as nossas reivindicações.
Diante da irresponsabilidade e omissão do Estado brasileiro em não solucionar nossos problemas quanto a demarcação de nossa terra o único caminho que nos restou para que possamos melhorar as nossas condições de vida e garantir um futuro para nossas crianças nos organizarmos cada vez mais e irmos para a retomada de nossas terras.
Ao custo de ameaças, atentados, mentiras, calúnias e preconceitos daqueles que são contra nossos direitos, seguimos avançando em nossas lutas. Nossa maior reivindicação é a conclusão definitiva da demarcação de nosso território sagrado e jamais desistiremos até que o último palmo de nossa terra nos seja entregue!
Mesmo nosso povo tendo acreditado no Governo Federal que se diz aliado dos pobres e defensor de direitos humanos estamos percebendo que mais uma vez estamos sendo enganados. A Presidente Dilma, desde que assumiu seu Governo, sequer se pronunciou publicamente sobre a realidade dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul tido como uma das piores realidades de negação de direitos humanos fundamentais de todo mundo. O Governador de MS, e sua notória postura anti-indígena, promoveu, e continua promovendo, diversas ações para prejudicar ainda mais a situação de nosso povo, como foi o ingresso do Estado de MS em Ações Judiciais movidas por ricos fazendeiros com a finalidade de impedir a demarcação de nossa terra.
A Presidente Dilma Roussef está manchando seu passado e contradizendo seus discursos. Uma Presidente que afirmou que direitos humanos "não se negociam" mas que, na prática, já negociou nossas vidas em troca do gado, da cana, do boi e de usinas hidrelétricas. O que para nós tem se revelado uma postura irresponsável. Por fim, uma mulher que teve conhecimento das graves violações de direitos humanos em MS e a necessidade de soluções urgentes mas que, até agora, nada fez e nem sinalizou quaisquer soluções. Muito pelo contrário, vem investindo cada vez mais para gerar o lucro para meia dúzia de ricos fazendeiros e com nosso dinheiro público. Uma vergonha internacional!
Denunciamos novamente a recente violência cometida contra nosso povo Terena, que teve um ônibus escolar queimado por agressores ainda não-identificados pelas autoridades que causaram ferimentos graves em estudantes Terena e ao motorista do ônibus, o que provocou, posteriormente, a morte de nossa irmã Terena Ludersvone Pires. A Polícia Federal ainda não concluiu as investigações e nossa comunidade vem acumulando mais angustias e tristezas. Enquanto isso, o Governo Federal não faz nada e o Judiciário continua dando ordens de despejo contra os povos indígenas, mesmo diante de uma realidade tão desigual e injusta.
Diante disso, o que nos resta senão lutar? Já afirmamos que nosso povo não vai esperar trinta anos ou mais para vermos nossas terras demarcadas. Essa demora vem ferindo, há muitos anos, os direitos mais elementares de nosso povo e que são previstos pela constituição federal desde 1988 e por tratados internacionais que o Brasil é signatário.
Que Dilma consiga ver que a lógica do desenvolvimento a todo custo está prejudicando uma população indígena de mais de 70 mil pessoas.
Queremos deixar claro que as medidas propostas por fazendeiros e parlamentares sobre indenizações de terra aos fazendeiros não sejam o pretexto para protelar ainda mais a demarcação de nossa terra Cachoeirinha e muito menos para alterar nossos direitos conquistados na CF/88. Não iremos admitir retrocessos. Nossos direitos constitucionais foram conquistados pelas lutas de nosso povo e jamais devem ser alterados, mesmo que somente para pagar indenizações. Se querem pagar as indenizações, que isto seja feito sem qualquer alteração da constituição federal de 1988! Mas também queremos saber quem irá indenizar nosso povo pelas matas derrubadas, pelas águas poluídas e pelas terras degradadas pelos mesmos fazendeiros que querem ser indenizados?
Exigimos que os Ministros do Supremo Tribunal Federal julguem imediatamente todos os processos que envolvam a demarcação de nossas terras. Enquanto esses processos não são julgados a demora só corre a favor dos fazendeiros que continuam explorando nossos recursos naturais de forma predatória, nossa população aumentando e nosso povo passando cada vez mais dificuldades pela falta de nossas terras. Mesmo diante disso, o STF, infelizmente, ainda não se deu conta de sua responsabilidade e além de não julgar nossos processos como manda a lei ainda determinam o despejo de nosso povo, isso, de forma bem rápida. São rápidos para despejar famílias para a beira da estrada mas são lentos para cumprir com suas obrigações.
Parece que esperam nosso povo fazer um grande movimento de retomadas para dar uma solução final do processo, como sempre. Pelo jeito, enquanto não nos movimentarmos, nos parece que não farão nada!
Já estivemos em inúmeros estados do país e fora do país denunciando nossa realidade. Fomos para Brasília, entregamos centenas de documentos, conversamos com Ministros (STF, Governo Federal, etc.), Procuradores, Juízes, Advogados, Deputados, e até com o ex-Presidente Lula e até agora não houve nada para que nossos direitos sejam respeitados e cumpridos. Durante a guerra do Paraguai defendemos a cidade de Miranda enquanto muitos soldados brasileiros estavam e fuga e hoje temos que viver com as migalhas e ainda sermos tachados de invasores de nossa própria terra.
Novamente vimos manifestar que este ano de 2011 o povo Terena não irá admitir mentiras. Queremos imediatamente uma solução definitiva para a demarcação de nossas terras pois do contrário não nos resta outro caminho senão irmos para a luta!
Viva o povo Terena, sua unidade e organização! Viva o futuro de nossas crianças!
Viva os povos indígenas do Brasil! Viva Cachoeirinha!
Demarcação e Homologação já!
Terra Indígena Cachoeirinha, sede, Miranda/MS, 16 de setembro de 2011.


Fonte: Comissão povo Terena Cachoeirinha.
Pesquisadores e bolsistas do Neppi apresentam trabalhos na UFMS
 
Entre os dias 12 e 16 de setembro pesquisadores e acadêmicos do Núcleo de Estudos e Pesquisas das Populações Indígenas da Universidade Católica Dom Bosco (Neppi/UCDB) participaram do II Ciclo de Palestras sobre História Regional: história e historiografia (sul) mato-grossense, realizado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Atualmente, o Neppi orienta oito acadêmicos do curso de História, inseridos no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic/UCDB).
Além dos artigos produzidos como exigência do Pibic os acadêmicos apresentaram ainda outros trabalhos, também relacionados a temática indígena. O grupo de trabalho História Indígena e Etno-história, coordenado pelo Ms. Leandro Baller, contou com apresentação dos artigos dos acadêmicos Mariana Falcão e Rodrigo Diniz, orientados pela professora Ms. Eva Maria Luiz Ferreira.
No mesmo GT apresentaram os acadêmicos Gustavo Costa do Carmo e Jaqueline dos Santos. Sob orientação dos professores Dr. Neimar Machado e Dr. Antonio Brand, respectivamente, os bolsistas abordaram a catequese colonial indígena e as frentes de expropriação territorial na fronteira entre Brasil e Paraguai. Gustavo apresentou ainda artigo também sobre o território expropriado, porém com foco nas estratégias do movimento étnico-social Kaiowá e Guarani, no período de 1988 à 2000. Em outro trabalho abordou as atividades econômicas do agronegócio em Mato Grosso do Sul frente à sintonia ambiental Kaiowá e Guarani.
Sob orientação do professor Ms. José Francisco Sarmento, Jaqueline também apresentou considerações iniciais de um levantamento dos artesãos indígenas, que busca estudar suas produções materiais e significados simbólicos. Também apresentou considerações de uma pesquisa em andamento, a acadêmica Letícia Ferreira da Silva, em co-autoria com a jornalista Caroline Maldonado. O trabalho busca perceber como são representados os indígenas em jornais on-line de Campo Grande. A história do índio sul-mato-grossense no livro didático das escolas estaduais de MS foi tema do artigo do acadêmico Saulo Cassimiro. Enquanto o acadêmico Ricardo Balani falou sobre a história do Tereré na cultura de MS.
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Fonte: Neppi/Ucdb - http://www.neppi.org/

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

MPF em Dourados considera genocídio ataque a índios em Iguatemi

por Camila Emboava Lopes — última modificação 08/09/2011 12:46

Inquérito na Polícia Federal investiga violência contra indígenas acampados em estrada no sul do estado. Índios continuam sob risco.

Município de Iguatemi, sul de Mato Grosso do Sul, 23 de agosto de 2011, por volta das oito da noite. Indígenas guarani-kaiowá, acampados às margens de uma estrada vicinal são atacados por homens armados. O relato é de um dos líderes do grupo: "Estávamos rezando, de repente chegaram dois caminhões cheios de homens, chegaram atirando, ordenaram parar queimar barracas e roupas e amarrar todos índios. Saímos correndo, em direção diferente. A 300 metros do local vimos as barracas queimando e muito choro. Faroletes e lanternas estão focando pra lá e cá, as crianças e idosos não conseguiram correr. Os meus olhos enlagrimando (sic) escrevi este fato. Quase não temos mais chance de sobreviver neste Brasil”.

O ataque deixou feridos - principalmente crianças e idosos, que não conseguiram correr - (veja fotos) - e destruição. O acampamento, em área pública de uma estrada vicinal, foi totalmente queimado, assim como os pertences dos índios e o estoque de comida. O Ministério Público Federal (MPF) em Dourados pediu abertura de inquérito na Polícia Federal em Naviraí para investigar o crime. Foram encontrados dezenas de cartuchos de munição calibre 12 anti-tumulto (balas “de borracha”) e há indício de formação de milícia armada. O MPF trata o caso como genocídio, já que foi cometida violência motivada por questões étnicas contra uma coletividade indígena.

O ataque é mais um capítulo da crônica de violência étnica em Mato Grosso do Sul, estado com a 2ª maior população indígena do país. 70 mil índios de diversas etnias aguardam a demarcação das terras tradicionalmente ocupadas por eles, em cumprimento a um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pelo MPF e a Fundação Nacional do Índio (Funai) em 2007 e até hoje não cumprido. Clique aqui para conferir o TAC e aqui para saber mais sobre o tema.

A área reivindicada pelo grupo guarani-kaiowá é conhecida como Puelito Kue e já foi estudada pelos antropólogos da Funai. O relatório, cuja publicação é uma das fases da demarcação de terras indígenas, está em fase final de redação. Mesmo depois da violência do ataque, os indígenas retornaram ao mesmo acampamento, pois não têm para onde ir.

Houve dois outros eventos violentos envolvendo a comunidade. Em 14 de Setembro de 2003, um grupo tentou retornar à área. Dois dias depois homens armados invadiram o acampamento e expulsaram os indígenas com violência. Em 8 de dezembro de 2009, nova violência contra o grupo. Segundo depoimento prestado ao MPF, os índios foram amarrados, espancados e colocados num caminhão, sendo deixados em local distante do acampamento. O indígena Arcelino Oliveira Teixeira desapareceu sem deixar pistas. O corpo nunca foi encontrado.

Nas fotos, é possível ver as marcas do ataque ao acampamento indígena. Dezenas de cartuchos de munição calibre 12 anti-tumulto; barracos, pertences e alimentos queimados (confira imagens do acampamento destruído). Os mais atingidos pela violência foram idosos e crianças. Em vista da insegurança, os indígenas se valem de um meio precário para atravessar o rio que os separa do acampamento. São 50 metros entre as margens, dois metros de profundidade e forte correnteza, vencidos por mulheres, idosos e crianças através de um fio de arame (fotos da travessia).  Na outra margem, sentem-se mais seguros contra ataques.

Assessoria de Comunicação Social
Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul
(67) 3312-7265 / 9297-1903
(67) 3312-7283 / 9142-3976



Fonte: Ministério Público Federal de Mato Grosso do Sul.
Disponível em:


Gritos e celebrações de agosto.

Por Egon Heck


05/09/2011

Mês intenso. Inúmeras lutas e celebrações. Mobilizações por esse Brasil e mundão afora. Enquanto se mostrava nacionalmente as enormes máquinas ferindo a Mãe Terra, a revolta e indignação contra a barbaridade da hidrelétrica de Belo Monte ecoou das profundezas da natureza aos fortes ventos e furacões de agosto. Não dá mais para calar a rebelião. As violências e agressões são tantas e tão infames, que nos resta inflamar a sagrada ira de clamor e luta pela vida, pela natureza agredida, pela Mãe Terra sendo destruída, pela paz sendo banida!


PyelitoKue e Mbaraka’i – rastros de uma guerra secular

Tonico Kaiowá faz a vez de um repórter de guerra. Um frágil celular e um computador, são os canais que transmitem a dor diária das agressões, dos ranchos destruídas, do temor de um novo ataque eminente. Relata a hora e a intensidade dos tiros, do fogo, da fuga desesperada, dos ferimentos e dos desaparecidos. Retrata com a fidelidade e a emoção e o compromisso com seu povo permitem. Fala da fome que acoita velhos, crianças e adultos, provocando desespero.

Um absurdo. Uma centena de nativos querendo apenas um pedaço de sua terra tradicional para sobreviver, armados apenas de sua disposição de viver e de seus direitos sagrados na lei e no chão, sendo tratados como bandidos invasores. Os heróicos Kaiowá Guarani enfrentam as forças armadas do agronegócio com o escudo e certeza dos Nhanderu, de Tupã, com a grandeza e espiritualidade que o deus do capital, da acumulação, do mercado, jamais conseguirão destruir a resistência, paciência e persistência do povo Kaiowá Guarani. Representante do ministério público esteve no local e constatou a brutalidade, violência e destruição feita pelos pistoleiros e capangas dos fazendeiros, conforme é possível constatar nas fotos.

Após denúncia das violências a polícia federal de Naviraí foi ao local. Estranhamente não permitiu a presença da FUNAI, preferindo ir em companhia do fazendeiro. Obviamente que não viram os índios. Foi o suficiente para espalharem a notícias de que não havia índios na região.

Também a polícia militar e civil do Estado se fez presente para ameaçar os índios conforme escreveu Ava “Os parentes indígenas guarani e Kaiowá de Jaguapire e Pyelitokue ligaram pra mim e para todos, várias vezes, contando que Policiais Civis e PM do Estado-MS compareceu no acampamento, avisando que pra não ficar ali acampados, nem matar vacas, encheu sacos dos indígenas. Tiraram as fotos da Civis. além disso, contaram que na região não deixando mais entrar a pessoa que leva comida ao grupo atacado, para impedir Policia Civis está fazendo barreira ao longo da estrada ou asfalto BR que liga entre cidade Amambai, Tacuru e Iguatemi, parando todos os carros, avisando não é pra levar comida e nem nada para o grupo indígena atacado, que   hoje em diante não deixará entrar pessoa seja indígena ou não indígena com a comida lá em acampamento via Sassoró. Puxa! Dessa forma a PC e PM está contribuindo com o genocídio, desrespeitando o principio dos direitos Humano. Esta é ultima informação de hoje 26/08/2011.”       


Marchas e flores

Marcham as margaridas em frente à casa de Dilma. Marcham os Kaiowá Guarani sob as amarelo-douradas flores da sibipiruna em Dourados. Gritam os sem terra em Brasília, ecoam as vozes pelo mundo contra Belo Monte de destruição, de povos e da vida.

A vida pede passagem. A dor da revolta incendeia os guerreiros que estavam à sobra das árvores destruídas. As águas poluídas pela ganância do latifúndio e do agronegócio se lançam contra as turbinas da morte e da acumulação. Empreiteiras e empreitadas afiam suas armas em seus berços verdes de dólares saqueados e saciados com a cumplicidade do poder.


Pequenas vitórias, grandes esperanças

Yta’i, completa hoje um ano. Retomaram um pequeno espaço de seu tekohá. Ali fincaram a bandeira da esperança. Neste ano conseguiram construir uma importante e indispensável coesão do grupo, construíram uma “ogapisy” (casa de reza) e fizeram o ritual da benção do milho branco (saborô). A maioria dos barracos estão cobertas de sapé. Um certo clima de tranquilidade  parece marcar a passagem de acampamento a aldeia.

Estão aguardando a publicação do relatório de identificação da área, que estará sendo entregue conforme cronograma acertado entre o Ministério Público e FUNAI.

Fomos até a comunidade para levar nossa solidariedade nessa celebração de um ano da retomada. Tempo marcado por tensões, mas também de crescimento da esperança.

Vimos juntos o vídeo da retomada, e outros vídeos da luta dos povos indígenas no Mato Grosso do Sul.


Fonte da notícia: Campanha Guarani

Inserido por: CAMPANHA GUARANI NO BRASIL.


Fonte: Campanha Povo Guarani Grande Povo.
Disponível em:

A guerra dos Guarani-Kaiowá: Reza para parar bala, retomada para andar justiça.

A GUERRA DOS GUARANI-KAIOWÁ: REZA PARA PARAR BALA. RETOMADA PARA ANDAR JUSTIÇA.

Por Joana Moncau 06/09/2011.

seg, 2011-09-05 12:28 — Michelle
Os disparos vinham em sua direção. Ergueu os braços para os céus com o Mbaraka na mão e rezou. Uma bala de borracha acertou suas costas. Mesmo ferido, o xamã Guarani-Kaiowá de mais de 60 anos, não parou de cantar. “Onde cai rezei para que não morresse ninguém”, conta. Seu canto era abafado pelos sons de tiro. E assim amanheceu. Nenhum morto naquela madrugada do dia 23 de agosto. Do acampamento que o grupo de quase 30 indígenas Guarani-Kaiowá mantinha na beira da estrada no município do Iguatemi, não sobrou barracas, pertences ou comidas, tudo foi queimado. Pelo menos quatro indígenas foram feridos pelas balas de borracha e espancados. Acampavam ao lado da Fazenda Santa Rita, que pertence ao prefeito desse município. Lá está o território indígena tradicional conhecido como Pyelito Kue – Mbarakay que reivindicam desde longa data.

A mais recente tentativa de retomada da área teve início no último dia 09 de agosto. O grupo de Guarani-Kaiowá ocupou parte da Fazenda Santa Rita. Não se passaram quatro dias para que sofressem violentos ataques por parte dos pistoleiros encapuzados e armados. Tiveram que sair correndo do local e se esconder na mata para se proteger, onde pretendiam ficar e resistir. Entretanto, segundo liderança indígena do grupo informou por telefone ao antropólogo kaiowá Tonico Benites, no dia 17 de agosto, a situação ficou insustentável. Depois de dois dias em que as crianças, homens e mulheres já estavam sem comer nada, só bebendo água, parte do grupo decidiu sair da mata. “Nesse momento se depararam com os homens da fazenda armados e os indígenas pediram para que não lhes matassem e nem espancassem as crianças. Os jagunços disseram que deixariam eles saírem vivos dessa vez, mas que não sairiam com vida se retornassem”.

Ameaçados, deixaram a fazenda para montar o acampamento na beira da estrada que faz divisa com a mesma e seguir com sua luta. Mesmo assim, foram atacados no último dia 23. Se a ameaça não cessou, a determinação dos indígenas se fortaleceu. “Voltamos para o mesmo lugar, onde havia barraco queimado levantamos outro no lugar”, conta um membro do grupo. Seus integrantes afirmam: “Vamos ser enterrados aqui, daqui não saímos, vivos ou mortos estamos aqui”.

O ataque está sendo investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal (PF) e o procurador da república, Marcos Antônio Delfino, abrirá um inquérito por genocídio para apurar o caso, que teve repercussão internacional. Enquanto isso, o grupo segue recebendo ameaças de que pistoleiros retornarão para retirá-los do local e aqueles que querem apoiá-los recebem intimidações.


Das outras retomadas

Em julho de 2003, o grupo Guarani Kaiowá que ocupou a área Mbarakay já havia tentado retornar à Terra Indígena Pyelito Kue – Mbarakay. A ocupação não durou dois dias, foram expulsos por pistoleiros das fazendas da região, que invadiram o acampamento dos indígenas, torturaram e fraturaram as pernas e os braços das mulheres, crianças e idosos.

Em dezembro de 2009, o grupo retornou à região e foi espancado, ameaçado com armas de fogo, vendado e jogado à beira da estrada em uma desocupação extra-judicial, promovida por um grupo de pistoleiros a mando de fazendeiros da região. Na ocasião, mais de 50 pessoas, inclusive idosos, foram espancadas, e um adolescente desapareceu.


O maior grupo indígena do Brasil

Essa última ocupação foi realizada quase um ano após a Funai lançar um pacote de grupos de identificação de terras indígenas no estado, em 2008. Estão previsto o reconhecimento e a demarcação de terras indígenas em 26 municípios da região sul do Mato Grosso do Sul, entre elas Pyelito Kue – Mbarakay. As ocupações das terras reivindicadas pelos indígenas são para pressionar pela rápida conclusão dos trabalhos de identificação, a cargo da FUNAI.

Os Guarani-Kaiowá formam o maior grupo indígena do Brasil: são 45 mil pessoas que vivem no Mato Grosso do Sul. Nesse estado, que abriga a segunda maior população indígena do país, esse grupo sofre constante violência e racismo. Os Guarani-Kaiowá vivem em pequenas “ilhas” de terra que, somadas, alcançam pouco mais que 42 mil hectares – compare-se com o 1,7 milhão de hectares da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, onde vivem 20 mil pessoas. Acossados pelos fazendeiros, rodeados por pastagens e plantações de soja e cana, sem terra, nem mata – da mata original ali não restam mais que 2% –, lutam a duras penas para sobreviver.

Fonte da notícia: Brasil de Fato.
Inserido por: CAMPANHA GUARANI NO BRASIL


Fonte: Campanha Povo Guarani Grande Povo.
Disponível em:

Terrorismo e genocídio contra os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul

Inserido por: Administrador em 09/09/2011.

Fonte da notícia: Cimi - Conselho Indigenista Missionário

Nota Pública do Conselho Indigenista Missionário.

"Estávamos rezando, de repente chegaram dois caminhões cheios de homens, chegaram atirando, ordenaram parar queimar barracas e roupas e amarrar todos índios. Saímos correndo, em direção diferente. A 300 metros do local vimos as barracas queimando e muito choro. Faroletes e lanternas estão focando pra lá e cá, as crianças e idosos não conseguiram correr. Os meus olhos enlagrimando (sic) escrevi este fato. Quase não temos mais chance de sobreviver neste Brasil”.
Relato de uma vítima do atentado contra a comunidade de Pyelito Kue.

O Conselho Indigenista Missionário - Cimi vem a público denunciar e repudiar os ataques terroristas e genocidas desferidos contra os Guarani-Kaiowá, da comunidade Pyelito Kue, em Iguatemi, no estado do Mato Grosso do Sul, ocorridos nos dias 23 de agosto e 05 de setembro. Além de terem seus pertences destruídos, vários indígenas foram covardemente agredidos por homens fortemente armados.
Para o Cimi, o fato de terem sido encontrados, no local dos ataques, cartuchos de munição calibre 12 anti-tumulto, as chamadas “balas de borracha”, constitui-se em mais um forte indício de formação de milícia armada, no Mato Grosso do Sul, com a finalidade de cometer crimes contra os indígenas daquele estado.
O Cimi manifesta extrema preocupação pelo fato de que, dada a total inércia das autoridades, especialmente do Governo Federal, há possibilidades de que ocorram novos, iminentes e ainda mais graves atentados à comunidade Pyelito Kue. De acordo com informações de uma liderança da comunidade atacada, repassadas na manhã desta sexta-feira, 09, a agentes do Cimi, não tendo para onde ir, os indígenas continuam acampados próximos ao local onde sofreram os ataques, estão cercados e têm sido alvo de constantes ameaças de fazendeiros e seus “seguranças”, que disparam tiros a todo o momento sobre os mesmos. Segundo essa mesma liderança, os indígenas estão isolados numa margem do rio que atravessaram para fugir dos ataques. Estão sem roupas, sem cobertas e sem alimentos. A liderança informa ainda que depois do último atentado, ocorrido na madrugada de segunda-feira, 05, nenhum representante da Funai, Polícia Federal ou de outros órgãos públicos foi ao local.
O ataque a Pyelito Kue soma-se a outras situações análogas ocorridas, nos últimos anos, com as comunidades Apykai, Kurusu Ambá, Passo Piraju, Mbaracay, Ypoi, Guaiviry, Cachoeirinha, Buriti, Nhanderú Marangatu, Taquara, Carumbé, Itayka’aguyrusu, Yvykatu, Jaguapiré, GuiráKambi’y, entre outras. Nos últimos oito anos, mais de 250 indígenas foram assassinados no Mato Grosso do Sul.
Para o Cimi, a morosidade do Governo Federal em demarcar as terras tradicionais dos povos indígenas e a não identificação e punição dos seus agressores e assassinos constituem-se em verdadeira anuência e incentivo ao processo de terror e genocídio imposto aos Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul.
O Cimi conclama a sociedade nacional e internacional a se manifestar junto às autoridades brasileiras a fim de que assumam suas responsabilidades e tomem, de uma vez por todas, as medidas necessárias e urgentes para que se interrompa imediatamente esse processo de extrema violência contra os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul.

Brasília, DF, 09 de setembro de 2011.

Cimi - Conselho Indigenista Missionário

Fonte: Cimi.
Disponível em:

domingo, 4 de setembro de 2011

CIMI: Nota Pública da CNBB Regional Norte 2 sobre a UHE Belo Monte.
Fonte: CIMI
Inserido por: Administrador em 02/09/2011.
Fonte da notícia: CNBB - Regional Norte 2.
"Salva o teu povo, abençoa a tua herança!" (Sl 27, 9) Há grupos e pessoas que costumam gritar "a Amazônia é nossa", não para defender a incontestável soberania do Brasil sobre esta macroregião, mas para explorar até a exaustão as riquezas naturais e transformar a terra, as águas e as florestas em mercadoria, objetos de negócio. A família humana perde o direito de viver no lar que Deus criou. É expulsa da terra herdada dos antepassados. Na região do Xingu, o projeto Belo Monte coloca em risco a vida de milhares de pessoas. Em 1º de junho de 2011, o IBAMA concedeu à empresa Norte Energia S.A. a Licença de Instalação (LI) para construção desta hidrelétrica e declarou que "concluída a análise técnica e elaborado o relatório, todas as quarenta condicionantes estão cumpridas". Essa afirmação é uma afronta aos povos do Xingu, pois simplesmente não corresponde à verdade. As prometidas ações antecipatórias de saneamento básico em Altamira e Vitória do Xingu não foram realizadas. Providências de infra-estrutura absolutamente necessárias no campo da saúde, educação, habitação e segurança pública não foram tomadas. Trinta mil pessoas vivem o pesadelo de serem arrancadas de suas casas sem saberem para onde ir. Enormes áreas e plantações são desapropriadas em troca de indenizações irrisórias. Quem resiste é processado judicialmente. Anuncia-se pelos meios de comunicação que a barragem não afetará os indígenas, porque nenhuma aldeia será inundada. Acontecerá o contrário: aos povos da Volta Grande do Xingu será cortada a água. Em Altamira, os aluguéis chegam a preços exorbitantes, provocando invasões de áreas urbanas e acampamentos em frente à Prefeitura. É o caos que se instala. A segurança pública é incapaz de debelar a crescente onda de violência. Os acidentes de trânsito se multiplicam de maneira assustadora. Os hospitais estão superlotados. As escolas nem de longe conseguem atender à nova demanda de vagas. O Governo Federal nega o diálogo, oculta informações, aposta na política do "fato consumado" e passa, qual rolo compressor, por cima da população. Manifestamos nossa solidariedade com os povos do Xingu e denunciamos a falta de sensibilidade das autoridades governamentais que não se deixam comover pelo grito de milhares de pessoas angustiadas. Ainda nutrimos a esperança de que o bom senso vença a insanidade de um projeto tão pernicioso para a população e o meio-ambiente e suplicamos ao bom Deus: "Salva o teu povo, abençoa a tua herança!" (Sl 27, 9). Que Nossa Senhora de Nazaré, padroeira da Amazônia, interceda pelos irmãos e irmãs do Xingu!
Belém, 2 de setembro de 2011.

Fonte: Cimi.

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